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ROTARY NÃO É EMPRESA E NEM PODERIA SER

10/06/2007

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      Tenho presenciado muitas discussões sobre a

estrutura do Rotary e seus mecanismos para a promoção da solidariedade humana.

Nesta linda manhã ensolarada dos dias que precedem o início da estação do inverno, resolvi escrever esta crônica sobre o tema Terceiro Setor.

Entendo Crônica como uma narrativa histórica por ordem cronológica. Então vamos por partes:

 

1a ETAPA - O SER HUMANO É UM SER GREGÁRIO:

Desde os primórdios dos humanos, o homem sentiu a necessidade de se associar em grupos para conseguir atingir determinados objetivos. Naqueles tempos não havia outros interesses além da própria sobrevivência, comer era essencial. Bastava comer, nada mais.

Gregário significa que faz parte de grei ou rebanho; que vive em bando. É dessa época máxima “A união faz a força”.

O interessante que a agregação funciona nos dois sentidos. Quando o homem é atacado por um predador, o fato de estarem em bando facilita a sobrevivência pois o predador come uns enquanto que os outros conseguem fugir.

Como todo mamífero, o homem tem necessidade de demarcar o território onde vive. Assim, os diversos bandos aprenderam a delimitar e a respeitar os territórios de uns e de outros.

Entretanto, o aumento populacional fez rarear a caça e tomar para si novos territórios passou a ser imperioso para a sobrevivência.

Nasce o conceito de Império e conseqüentemente o da Guerra.

2a ETAPA - O NASCIMENTO DO ESTADO:

No princípio dos tempos, a guerra era uma coisa artesanal, sanguinolenta, primitiva e pouco eficiente. Coisa de bárbaros, diríamos.

Com os Gregos a guerra foi racionalizada. Criou-se uma entidade, o Governo, para pensar, articular e comandar a guerra.

Durante milhares e milhares de anos, a sociedade humana era toda voltada para a guerra. Só existia a guerra e tudo girava em torno da guerra. Os homens produtivos eram todos treinados para a guerra, as mulheres plantavam e colhiam para a guerra, as crianças viviam brincando, isto é, se preparando para a guerra e os anciãos contavam épicos, isto é, grandes feitos, grandes conquistas realizadas nas guerras.

Com o Renascimento, a sociedade percebeu que nem tudo na vida era guerra. Que havia vida fora da guerra, que havia mais vida fora da guerra.

NASCIA A SOCIEDADE CIVIL.

Inicialmente muito combatida, a sociedade civil (fora da sociedade militar) não vivia para a guerra. Produzia bens de consumo como as artes. Coisa totalmente inútil, para a época. Era um bando de desocupados.

Procurando acompanhar essa evolução da sociedade organizada, inventou-se diversas formas de governo, procurando aperfeiçoar essa forma de organização social. De início a organização monárquica (imperial ou reinante) por intermédio de sua estrutura funcional na forma de Império ou de Reino procurava promover a melhoria social e material do ser humano.

Havia um mandatário principal denominado Imperador ou Rei que procurava impingir a sua vontade a toda uma população.

Utilizavam-se para isso um instrumento denominado POLÍTICA.

Política é a capacidade de uma pessoa conseguir convencer uma quantidade grande de pessoas por meio de palavras. Na política o que vale é a CONQUISTA. Todos os políticos vivem se vangloriando das “conquistas” suas ou de seus partidos. Aquele que atrapalha a conquista deve ser eliminado. Milhões de pessoas foram covardemente assassinadas com essa desculpa esfarrapada.

Mais tarde, as formas de governo foram aperfeiçoadas. Movimentos importantes como a Revolução Francesa que pregavam a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade impregnaram outros movimentos como a Independência dos Estados Unidos e a Independência do Brasil.

A estrutura militar foi perdendo a importância – hoje é um supérfluo ainda mantido por alguns governos autoritários. Infelizmente ainda classificamos a nossa sociedade como “sociedade civil”.

Atualmente, só existe, praticamente, uma única forma de governo que é a Democracia onde pessoas que representam parcelas da comunidade discutem e decidem o que é bom para todos.

Claro que tudo isso tem um preço e todos eles (desde os primórdios até o dias de hoje, principalmente nos dias de hoje) conseguem os insumos através da cobrança de impostos. A cada vez que falta dinheiro simplesmente aumentam os impostos.

É idéia generalizada e por todos aceita de que onde todos pagam, todos pagam menos.

3a ETAPA - O SURGIMENTO DO SEGUNDO SETOR:

A estrutura social baseada em governos parece que não deu muito certo. O governo é incompetente para gerir todas as necessidades das pessoas e todas as formas de governo acabaram por reconhecer as suas fragilidades.

Essa deficiência dos governos ficou mais evidente com o desenvolvimento industrial facilitado pela massificação do desenvolvimento científico e tecnológico que se verificou nas primeiras décadas do século XIX.

Descobertas como a máquina a vapor, a eletricidade, a mecânica, o motor a explosão deram impulso a uma coisa nova que ficou conhecida, mais tarde, como EMPRESA.

Entendo Empresa como um empreendimento, uma “coisa” montada, estrutura para a produção de bens (materiais ou de serviços). Uma máquina monstruosa, terrível, que tem vida própria que tem seus próprios objetivos. Se um indivíduo ficar no caminho dessa máquina ele é simplesmente excluído, demitido.

As pessoas são partes dessa “coisa”, vivem da “coisa” e vivem para a “coisa”.

É uma nova forma de organização social. Criticada e combatida por muitos como Chaplin em Tempos Modernos. botaoQV.gif (478 bytes)

Surge o Operário, um trabalhador treinado e preparado para atuar como parte de uma engrenagem complexa da qual faz parte.

É a sociedade da oportunidade, da competência. Cai por terra a igualdade, começa a valer o “olho por olho – dente por dente”. “Você quer? Então pague!”. Até setores que tradicionalmente exploram a solidariedade aderem ao novo sistema e se adaptam dizem "É dando que se recebe" como se tudo na vida dependesse do ato da troca.

Tudo nessa nova sociedade é baseada na troca.

Toda a sociedade recebe uma nova denominação – MERCADO e os instrumentos de condução e controle social chamam-se ECONOMIA.

NASCE O SEGUNDO SETOR.

O coitado do ser humano, explorado e espoliado pela fome insaciável e ganância do Primeiro Setor passa a viver sob o manto protetor do segundo setor. Consumir! Ter! passam a ser as palavras de ordem desse novo setor.

Quem não tem a “garra” do consumo, do “subir na vida”, do “ter” deve ser simplesmente eliminado. Milhões de pessoas foram covardemente assassinadas com esse pretexto.

Cria-se duas classes de pessoas. Aquelas que vivem dentro de uma cerca, a do consumo, denominado “Cidade”, com rótulos do tipo “CIDADÃO” e aquela excluída desse círculo de consumo, que vivem no meio do mato alheios ao consumo desenfreado.

Lembrem-se que Cidadão é a característica de quem vive na Cidade. Errou Ulisses quando levantou a Nova Constituição afirmando ser a Primeira Constituição Cidadã. Cidadania é imprimir características de quem vive na cidade.

Por incrível que possa parecer, o Segundo Setor também almeja a melhoria social e material do ser humano. Tudo igual ao que diz o Primeiro Setor.

Mas o Segundo Setor também é incompetente para gerir todas as necessidades dos seres humanos. A máxima do segundo setor que é “eu tenho – você não tem” parece que não consegue ter eco em determinadas paragens. Funciona muito bem em sociedade francamente capitalista como a sociedade estadunidense, mas fracassa vergonhosamente em sociedades tribais como na África, Índia e todo o Oriente Médio.

Questões como solidariedade, humanidade não encontra eco na sociedade do segundo setor. Sociedade da eficiência, do resultado, da qualidade e produtividade. Tanto no Primeiro como no Segundo setores, aquele que pratica a solidariedade é “frouxo”, de coração mole.

4a ETAPA - O QUE É O TERCEIRO SETOR:

Aparentemente, o fracasso ou os fracassos tanto do Primeiro como do Segundo Setores da organização social nasce no momento em que procuramos equilibrar o Interesse Pessoal com o Interesse Coletivo.

Tanto num como noutro, as crises estão centradas justamente nesta questão. Nenhum dos dois setores consegue incorporar ações como a da FILANTROPIA no sentido de caridade, de altruísmo e de humanidade.

Tanto no Primeiro Setor como no Segundo Setor, o Interesse Coletivo é sempre prejudicado pelo Interesse Pessoal. Todos os escândalos são sempre oriundos de ações pessoais contra o interesse coletivo. Valores morais e éticos raramente são levados em consideração.

Esse novo setor da organização social não se preocupa mais com a CONQUISTA (característica do primeiro setor) nem com a POSSE (característica do segundo setor).

Passa a ser valorizada a pessoa que é caridosa, que ajuda os outros sem interesse pessoal – o Filantropo. No terceiro setor não existe o principal vilão do Primeiro e Segundo setores, o Interesse Pessoal.

NASCE O TERCEIRO SETOR.

O objetivo do Terceiro Setor é a melhoria social e material do ser humano, isto é, é exatamente o mesmo para o qual foram criados o Primeiro e o Segundo Setores. Entretanto trabalha com ferramentas diferentes. Enquanto que o Primeiro Setor utiliza a Política, o Segundo Setor utiliza a Economia, o Terceiro Setor utiliza a ferramenta Filantropia. Esta desperta nas pessoas sentimentos de amor à humanidade e procura atender às demandas através de trabalho voluntário.

São conceitos novos, pouco trabalhado, ainda. Confundimos muito. Queremos dar uma ordenação militar ao terceiro setor. Não funciona. Queremos dar uma ordenação empresarial ao terceiro setor. Não funciona. Queremos fazer parceria com o Primeiro Setor. Queremos fazer parceria com o Segundo Setor. Mas nada disso justifica o Terceiro Setor. Lembrem sempre que o Terceiro Setor nasce justamente nas falhas existentes neles, de mecanismos que não conseguem resolver o impasse entre o Interesse Pessoal e o Interesse Coletivo.

Dar o Peixe? Ensinar a Pescar? – Nada disso!

De baixo desse novo conceito – FILANTROPIA - é possível o desenvolvimento de uma infinidade de ações organizadas.

ATORES DO TERCEIRO SETOR.

Podemos ter uma ONG, isto é, uma organização política não-governamental, isto é, uma entidade que faz a mesma coisa que o governo faz (ou deveria fazer, ou que se propõe fazer). Veja, por exemplo a Greenpeace.

Podemos ter Ações Sociais dentro de empresas do Segundo Setor. Nos dias de hoje, além do lucro, as empresas perseguem, por meio de diretrizes denominadas Missões, objetivos sociais revestidos de humanidade e filantropia.

Podemos ter Associações Beneficentes que são organizações com fim único de promover a humanidade, a filantropia e a caridade. Veja, por exemplo, o belíssimo trabalho da AACD.

Podemos ter Associações Esportivas e Recreativas que além de práticas esportivas e de recreação promovem ações sociais de caráter humanitário. Campanha do Agasalho, Campanha de Brinquedos.

Podemos ter Ações de Caridade dentro de igrejas. Função antiga que a igreja já mantém há tempos, ganha grande importância a partir da valorização do trabalho voluntário que ganha importância mundial a partir da década de 80. (O Dia Internacional do Voluntário 5 de dezembro foi criado em 17 de dezembro de 1985 pela Assembléia Geral das Nações Unidas com o objetivo de valorizar e incentivar o serviço voluntário em todo mundo. No Brasil também temos lei sobre isso. botaoQV.gif (478 bytes))

Podemos ter ação individual de cunho social através de fundações e institutos pessoais como o Instituto Ayrton Senna.

Podemos ter Ação Voluntária Direcionada, montada para determinado ou determinados fins. Escola de Inclusão Digital, Escola de Circo, Escola de Música, etc. onde Profissionais aproveitam sua experiência profissional e dedicam parte do seu tempo para ensinar e treinar a comunidade, ou parcelas da comunidade, em ofício que promove indiretamente o respeito, a amizade, o espírito de mútua colaboração e a dignidade humana. Não é escola profissionalizante – é preencher a lacuna deixada pelo Primeiro e pelo Segundo setores.

Podemos ter a Ação Voluntária Profissional reunida em determinadas entidades de profissionais como Sindicatos, Associação Comercial, Industrial, Associação de Profissionais e mesmo em entidades específicas como os Anjos do Asfalto e outras que congregam profissionais de mesma qualificação profissional.

Há entidades como o Rotary International que objetiva estimular e fomentar o ideal de servir e orienta seus associados para o exercício de trabalho voluntário através das suas respectivas profissões.

Entende o Rotary que o Watanabe ao colaborar com a Quermesse da igreja, carregando caixas de bebidas, está realizando um magnífico trabalho voluntário em prol dos carentes atendidos pela igreja, mas o Rotary percebe que o Watanabe é um “grande” engenheiro civil e que a sociedade poderia usufruir melhor de suas experiências no momento em que ele tiver a oportunidade de exercer a filantropia através da engenharia civil. Daí a sua classificação ser exatamente Engenharia Civil. Classificação não é o ofício, a profissão da pessoa, mas sim a área de atuação profissional dela. O Watanabe deve promover a melhoria da comunidade não como engenheiro civil mas sim através da engenharia civil.

Lembre-se que fundamentalmente, o Rotary é uma filosofia de vida que se propõe a solucionar o eterno conflito entre o desejo de lucro pessoal e o dever de auxiliar o próximo e que essa filosofia é a própria Filosofia do Servir, expressada pelo lema “Dar de Si Antes de Pensar em Si”.

5a ETAPA - QUADRO RESUMO DAS CARACTERÍSTICAS DAS ENTIDADES:

 

  1o SETOR 2o SETOR 3o SETOR
OBJETIVO Melhoria Social e Material do Ser Humano. Melhoria Social e Material do Ser Humano. Melhoria Social e Material do Ser Humano.
Grupo Social atingido ESTADO MERCADO COMUNIDADE
Agente produtor da ação social GOVERNO EMPRESA ORGANIZAÇÕES DO TERCEIRO SETOR – OTS
Instrumento da Ação POLÍTICA ECONOMIA FILANTROPIA
Mecanismos de produção de insumos Fornecimento mediante impostos Fornecimento mediante troca mútua Fornecimento baseado na Solidariedade
Produtos Oferecidos Bens e Serviços – Casas, Educação, Alimentação, Transporte Público, Hospitais, etc. Bens e Serviços – Alimentação, Educação, Hospitais, Transporte Público, etc. Bens e Serviços – Educação, Alimentação, Hospitais, Casas, etc.
Formas de Cobrança Cobrança indireta onde todos pagam Cobrança Direta onde quem pode mais chora menos Cobrança Dirigida – Paga quem pode mediante doações e trabalho voluntário
Lema Onde todos pagam – todos pagam menos. Eu tenho – você não tem. Mais se beneficia quem melhor serve.

Pratiquemos, companheiros, a Ação Rotária. 

 

Veja mais sobre Capacitação em Liderança em:
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Veja mais sobre o processo de aprendizado em:
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Esta é uma página pessoal que contém uma opinião essencialmente pessoal a cerca do tema Terceiro Setor.
As opiniões são, no fundo, "provocações" feitas aos nobres companheiros rotarianos e são baseadas em contatos, estudos e experiências pessoais e vale-se da liberdade proprocionada pela WEB. Ninguém é obrigado a aceitar, nem se pretende afirmar que as opiniões aqui colocadas sejam verdadeiras. Agora, se você gostou, pode imprimir, copiar e divulgar à vontade.
Roberto Massaru Watanabe
membro do Rotary Club de São Paulo - Tatuapé - EMAIL: roberto@ebanataw.com.br. Watanabe é engenheiro e como tal participou do projeto das grandes obras da engenharia nacional como a Rodovia dos Imigrantes e as hidrelétricas de Ilha Solteira, Itaipú e Tucurui. Nesses empreendimentos, adquiriu muita prática na organização e condução de grandes equipes.

RMW\GEROI\terceirosetor.htm em 10/06/2007, atualizado em 22/05/2009 .

    RMW-2380-12/04/2024