Minhas experiências pessoais na prática da Engenharia:
ORÇAMENTO  DA  CONSTRUÇÃO

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Quanto vai custar a construção da minha casa?

Quando pensamos numa construção logo pensamos em quanto vai custar pois é o custo que viabiliza ou inviabiliza uma construção.

Como se levanta o CUSTO de uma construção? Do que depende, essencialmente, esse levantamento? Quantos sacos de cimento serão gasto? Tem um jeito de fazer com menos sacos de cimento? Quantas pessoas e por quanto tempo? Se colocarmos mais pessoas trabalhando a construção ficará pronta em menos tempo? O que ganhamos se comprarmos o concreto pronto em vez de fazê-lo na obra?

São muitas as incógnitas, as perguntas que enfrentamos quando estamos para inciar a construção de uma casa.

Comecemos por levantar a quantidade de materiais que serão necessários.

A quantificação dos materiais necessários para cada serviço deve ser feita com base nos desenhos fornecidos pelo projetista, considerando-se as dimensões especificadas e suas especificações técnicas – por exemplo, ao se medir a área de piso de um apartamento, deve-se separá-la por tipo de revestimento a ser utilizado.

Entretanto, não se deve esquecer que o planejamento é sempre interativo, isto é, vai-e-volta e quando o preço “bate na trave” é possível voltar e rever os materiais projetados e os métodos construtivos considerados no projeto.

A tarefa de elaborar um Orçamento de Construção é uma atividade técnica e só pode ser realizada por profissional habilitado que, fazendo a Anotação da Responsabilidade junto ao CREA, responde pela qualidade do serviço anotando as atividades de 35-Planejamento, 17-Especificação (de Serviços, Equipamentos e Materiais) e 22-Elaboração de Orçamentos.

No caso do Orçamento, o mesmo deve ser elaborado com base na norma brasileira NBR-12721 e 12722 que define inclusive detalhes como “áreas” que suscita muita discussão sobre o que é “privativa” ou o que “coberta”.

Não se pode esquecer que junto com o Orçamento é obrigatória a apresentação do cronograma que, segundo a definição na NBR-16721 é:

3.18 cronograma de obras: Documento em que se registram, pela ordem de sucessão em que são executados, os serviços necessários à realização da construção e os respectivos prazos, previstos em função dos recursos e facilidades que se supõem serem disponíveis.

1- O QUE É UM ORÇAMENTO:

Ferramenta de planejamento que propicia a análise da execução de uma obra, planejamento este que busca não só diminuir o custo final da obra como também a duração total da construção e, mais, a busca de um método mais racional, talvez até com o emprego de equipamentos, para racionalizar a aplicação dos insumos como a mão de obra e os materiais.

2- QUAIS SÃO TIPOS MAIS USUAIS DE ORÇAMENTO:

Um orçamento pode ser Econômico, de Produção ou de Engenharia e as finalidades de cada tipo são detalhadas a seguir.

Quando o Orçamento é Econômico, não se discute o objeto, apenas se busca preços menores porém essa busca não se resume em tomadas de preço com valores fornecidos por diversos fornecedores, tanto de materiais como também mão de obra, como envolve a análise de fatores sazonais como as chuvas que podem influenciar a razão oferta/demanda. Uma construção feita no verão (período do ano em que chove muito) pode ter um custo final diferente caso a mesma construção fosse feita na inverno? Considera também fatores sociais e políticos como greve de caminhoneiros, facilidades de importação, isenções e políticas de incentivo à construção.

O Orçamentista precisa conhecer o mercado, em especial o mercado local onde a obra será construída. Um minucioso levantamento acompanhado de um inventário dos fornecedores locais, tanto de materiais e equipamentos como também de mão de obra, é de fundamental importância para um bom orçamento. Lembre-se que os preços praticados dependem não só de fatores geográficos como também da existência de um mercado agitado, aquecido, onde ocorrem disputas acirradas de preço entre fornecedores. No período que antecedeu os Jogos Panamericanos e as Olimpíadas no Rio de Janeiro era quase impossível encontrar algum pedreiro para fazer um serviço em casa.

Quando o Orçamento é de Produção, não há preocupação com o preço das coisas mas a atenção se concentra nas técnicas executivas mesclando mão de obra com equipamentos de tal forma que o estudo final leva a uma diminuição dos insumos, isto é, menos tempo ou menos mão de obra. Não é necessário dizer que os estudos levam em consideração a ergonomia, a faixa etária da mão de obra. Um pedreiro jovem tem mais aptidão para tarefas como assentamento de tijolos (serviço mais pesado) enquanto que um pedreiro com mais idade tem mais aptidão para tarefas como assentamento de azulejos (serviço mais leve). Na época atual, com a entrada maciça da mão de obra feminina ainda não há estudos que mostrem que tipo de tarefas a mulher faz melhor que o homem.

O Orçamentista precisa ter conhecimento e experiência em Tempos e Métodos e ter, ainda, a flexibilidade de alterar, ou alternar, metodologias em função da composição da equipe. Uma equipe que assenta azulejo no 4º andar pode empregar uma técnica de assentamento enquanto que outra equipe que assenta no 5º andar pode adotar uma técnica diferente, dependendo da composição da mão de obra da sua equipe.

Hoje em dia, com a evolução e a facilidade de acesso à robótica, muitos detalhes da construção já são realizadas por robôs.

Quando o Orçamento é de Engenharia, a preocupação é com a peça a ser construída buscando outros materiais que possam oferecer o mesmo desempenho que aquele convencionalmente escolhido.

O Orçamentista precisa ter conhecimento e experiência em materiais, suas propriedades, frequentar feiras e exposições onde, geralmente, são feitos lançamentos de novos materiais e equipamentos da construção.

Deve também estar ligado aos laboratórios de materiais onde, geralmente em parceria, desenvolve pesquisas e ensaios buscando e aprimorando as propriedades dos materiais para que tenham melhores desempenhos no edifício.

3 - PROPRIEDADES DOS COMPONENTES CONSTRUTIVOS

É importante não ser bitolado. Há pessoas que pensam que meninos se vestem de azul enquanto que meninas devem se vestir de rosa. Da mesma maneira encontramos Arquitetos e Engenheiros que pensam que a parede deve ser de blocos cerâmicos e o piso de ladrilhos hidráulicos e se esquecem que a escolha do material se dá pelo conhecimento da propriedade dos materiais. Por exemplo, a parede de um dormitório, espera-se, que retenha o ruído externo dos veículos que trafegam pela rua enquanto que a parede de um presídio deve assegurar a segurança que evite a abertura de buracos para a fuga.

Na minha passagem pelo IPT pesquisamos concreto com adição de fibras do coco, casas feitas à mão com placas de isopor e depois revestidas com concreto projetado, paredes feitas com blocos cerâmicos extrudados que em vez de serem cortados em 20cm eram cortados em 2,80 metros com 80 centímetros de largura capazes de fechar as paredes de uma casa em apenas 5 dias.

4- DESPERDÍCIO (de materiais, de equipamentos e de mão de obra):

Fala-se muito em desperdício e na escola de arquitetura e de engenharia se aprende que devemos acrescentar sempre 10% a mais por conta da quebra. Quando um profissional da construção adota esta postura ele, simplesmente, está perenizando o desperdício e fechando a possibilidade de pesquisa não só da aplicação do material como também do manuseio, estoque, recebimento do mesmo. Um azulejo assentado em junta prumo produz mais ou produz menos resíduo se assentado em junta amarração?

Quantas vezes, uma pilha de blocos de concreto precisou ser mudada e transportada para outro local só por que foi descarregada num local onde outra tarefa seria executada? Então, o planejamento minucioso de ocupação do canteiro de obras resulta em menos desperdício da mão de obra em tarefas cuja repetição poderia ser evitada. Na década de 80 falou-se muito em just-in-time, isto é, levar-na-hora-certa para que a mercadoria não fique parada aguardando, às vezes meses, sua vez de ser aplicada mas na indústria da construção poucos entenderam e praticaram essa técnica de modo que até hoje os canteiros abrigam montanhas de material em estoque que só atravancam o apertado espaço do canteiro.

Existem tarefas que não consomem materiais e nem mão de obra e por conseguinte são “esquecidas” no planejamento da execução da obra. Uma delas é a CURA que os materiais precisam ter. É erro comum enviar a equipe de pintura antes mesmo que a cura do revestimento tenha se completado e, como os pintores não tem obrigação de conhecer cura de argamassa, encontrando a parede ”seca” metem tinta nela. Anos depois o morador chama o Watanabe para vistoriar bolhas e desplacamentos da pintura – sorte minha.

Nas minhas andanças de mais de 50 anos de perícias constatei que grande parte de desplacamentos de pintura e de azulejo se devem ao fato da obra não ter dado tempo ou condições suficientes para a cura total dos materiais. Os mais antigos devem se lembrar que quando tínhamos pressa de acabar uma obra, deixávamos o cômodo, à noite, com uma pequena fogueira com o cômodo totalmente fechado para que o gás carbônico em contato com a cal da argamassa acelerasse o processo químico de carbonatação que transforma o Hidróxido em Carbonato. Nesse grupo de profissionais eu posso falar em carbonatação mas naquela época nem se tinha conhecimento desses fenômenos químicos e o conhecimento se baseava na experiência prática do oficial. Lembra? O profissional que tinha mais experiência era chamado de “oficial”. O anúncio do jornal pedia Oficial Pedreiro quando se buscava um bom pedreiro com experiência e pedia Meio-Oficial Pedreiro para contratar servente de obra.

5- BASES PARA O PLANEJAMENTO:

Antigamente, para elaborar o Orçamento de uma obra, a construtora guardava tabelas de produção que eram constantemente revisadas buscando sempre a melhor produtividade, tanto de materiais como também da mão de obra. Frequentemente organizávamos concurso de produtividade entre equipes de azulejistas, telhadistas, eletricistas, armadores, serralheiros, encanadores e marceneiros.

Na minha construtora, eu tinha Tabelas de Composição que eram individualizadas por equipe. A do João trabalhava bem o assentamento de azulejo em banheiros, lugares apertados e cheios de recortes enquanto que a equipe do Pedro trabalhava bem grandes áreas como lavanderias de hotel e hospitais e quando a gente olhava os azulejos, assentados um a um com argamassa de cal e areia, contra o reflexo, parecia que todos os azulejos “olhavam” para o mesmo ponto no infinito – um plano perfeito!

Tenho ministrado palestras em muitas faculdades e, conversando com o corpo docente, tenho constatado que as escolas não detalham muito esta questão do orçamento, limitando-se a mostrar os botão que precisam ser pressionados num software qualquer que “faz o orçamento”.

É uma pena! Parece que somente o custo total final é que interessa em detrimento de toda discussão técnica sobre equipamentos, materiais e métodos construtivos à busca de maior qualidade e maior produtividade na construção que os americanos chamam de “engeneering”.

Na década de 70, tive uma construtora que construiu centenas de casas e sobrados mas também construiu prédios imensos como este Center Móveis no km 18 da Via Anchieta com quase 10.000 m2 de área construída, todo em concreto aparente e fechamento lateral todo de vidro (uma grande inovação na época).

Eu não sei oque acontece nas faculdades brasileiras de Arquitetura e Engenharia se é uma acomodação ou se é deficiência do corpo docente pois milhares de faculdades foram autorizadas pelo Ministério da Educação e Cultura a funcionar porém muitas deles não dispõem de laboratório de solos e nem laboratório de concreto e os alunos, carregando diplomas de baixo do braço, não conhecem conceitos elementares de mecânica do solo como o Limite de Plasticidade e nem conceitos elementares de concreto como o Calor de Hidratação do cimento.

O Planejamento para a construção de uma obra começa pelo projeto onde, geralmente o Arquiteto, vai definindo os compartimentos e, para atender às necessidades específicas de cada compartimento, vai definindo os materiais que formam as fronteiras laterais e verticais. Nessa escolha, o projetista leva em consideração as condições construtivas e verifica se uma determinada laje pré-moldada de concreto protendido pode ser transportada da fábrica até o canteiro das obras e, mais, se há espaço e outras condições do local como a existência de espaço suficiente para a manobra do guindaste para a laje ser içada e assentada no lugar.

Pensa também na mão de obra (tipo de mão de obra) que será empregada na edificação e pode substituir a laje, inicialmente pensada, pré-moldada por lajes pré-fabricada com vigotas de concreto e elementos cerâmicos.

Para fazer o Planejamento de uma obra, existia, na década de 70, um material muito bom fornecido pela Editora PINI conhecido como Tabela de Composições de Preços para Orçamentos - TCPO e trazia a composição dos insumos de praticamente todo tipo de peças dentro de uma obra. Veja a capa do meu surrado volume que adquiri em 20 de janeiro de 1975.

Para quem não conhece, eis uma página da TCPO da PINI:

Observe que a composição dos insumos é bem detalhada, item a item, e ainda separa a fase de preparação da argamassa da fase de aplicação.

Naquela época só se falava em TCPO, mesmo por que só tinha ela para se consultar.

Embora muito usada, a tabela TCPO tinha um defeito. A produtividade era apresentada com valores médios. Explicando melhor, na tabela acima, diz que o Servente, para preparar 1 m3 de argamassa, leva 10 horas mas esse tempo é diferente para cada “tipo” de servente e também das condições locais – o local de preparo é no interior do edifício em construção? É no canteiro a céu aberto? É no meio da rua? Tem torneira de água por perto?

Na minhas obras, que sempre primei pela organização do canteiro de obras, a masseira era um grande caixão todo de tábuas e ficava no meio caminho entre o estoque e o local de aplicação de modo que o servente conseguia alta produtividade e conseguia fazer 1m3 em menos de 3 horas, isto é, começava às 7 horas e terminava às 10. O mesmo acontecia na aplicação que, como já disse anteriormente, a minha construtora tinha “equipes” e cada uma apresentava produtividades diferentes mas com valores sempre abaixo dos 0,4 horas/m2 da tabela PINI.

No mercado competidíssimo daquela época, qualquer centavo a menos era a diferença entre ganhar ou perder uma cotação, de modo que nosso orçamento era sempre feito com alocação dos recursos disponíveis na nossa construtora e, para isso, usávamos as nossas tabelas de Composição que eram atualizadas com frequência com dados reais levantados na execução das nossas obras. Nas minhas obras tinha um profissional "não-produtivo" de nome APONTADOR que anotava tudo - quantidade e tempo e com base na caderneta dele é que atualizávamos nossas tabelas de produção.

6- EVOLUÇÃO DAS TÉCNICAS CONSTRUTIVAS:

Quando eu trabalhei no IPT, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo, havia uma grande preocupação com a pesquisa de novos materiais e também de novos métodos construtivos. Foi na década de 80 que a indústria da construção teve um avanço significativo nessa direção e vivíamos desenvolvendo novos métodos construtivos e até máquinas para aumentar a produtividade na construção, sempre objetivando a diminuição do custo das obras.

Hoje, não se fala muito nas tabelas da PINI mas se fala muito, muito mais do que o necessário, da tabela SINAPI que é o resultado de uma pesquisa de preços feita por uma entidade da área financeira, que nada tem de comum com a área da construção, chamada Sistema Nacional de Pesquisa de Custos e Índices da Construção Civil com dados de todos os cantos do Brasil e, atualizados de forma periódica, e fornecem importante insumos para a precificação das obras.

A visão do sistema é, evidentemente, financeira pois é feita por um banco de modo que a produtividade e muito menos a qualidade ou durabilidade não são abordadas pelas tabelas. Trata-se de uma visão muito curta pois todos sabem que muitas vezes uma coisa que custa mais pode durar muito mais o que a torna muito mais barata ao longo do tempo.

Mas, analisando a composição apresentada pelo SINAPI, descobri no item 87794 uma composição para o mesmo serviço de aplicação de Emboço que temos na PINI. Veja:

Na pagina seguinte, o SINAPI apresenta diversos item explicativos e o 5º diz:

5. Critérios de aferição
Considerado o acesso à fachada através de balancim de tração manual ou andaime, sendo possível o suo dos mesmo coeficientes para ambas as situações;
Para o consumo de argamassa, considera-se a espessura média real de 25 mm, incluindo as perdas (incorporadas e por resíduos).

Chamo a sua atenção para o tempo dispendido pelo Pedreiro que na tabela da PINI, de 1975, era de 0,4 horas/m2 e que na tabela SINAPI, de 2019, é exatamente o mesmo 0,4 horas/m2! Então eu pergunto: desde 1975, quando a PINI dizia que um pedreiro levava 24 minutos para emboçar 1 m2 de parede, até os dias de hoje (2019), portanto passados mais de 40 anos e com todos os estudos de ergonomia da mão de obra na construção civil que foram desenvolvidos nesse período, não houve nem um “segundinho”, que seja, de melhora na produtividade? Paramos no tempo? O mundo todo discute produtividade, custo e desperdício na construção e nós não melhoramos em nada? A China, que era um país atrasado até a década de 70, investiu e continua investindo pesado no desenvolvimento de novos métodos construtivos, automatizando todas as etapas do processo construtivo, a racionalização das tarefas consegue hoje construir um prédio completo, acabado, mobiliado e decorado de 30 andares em apenas 360 horas! Veja bem HORAS e não DIAS. Nós aqui no Brasil não conseguimos fazer isso nem em 360 DIAS e eles fazem em 360 HORAS. Se você não acredita, assista o vídeo que mostra os detalhes a quantas anda a automação da construção na China e como eles conseguem construir um prédio de 30 andares em apenas 360 horas - clique aqui .

Há elementos de bloqueio para que isso não aconteça fazendo com que as obras no Brasil sejam uma das mais caras do mundo. Mais caras e mais demoradas.

Nas obras contratadas pelos governos (federal, estadual, municipal) e pelas empresas de economia mista é praxe o emprego da tabela SINAPI que é usada para fazer o que eles chamam de “orçamento” e é usada também para fazer o “pagamento” e sabe-se, desde 1975, que aqueles números apresentados, tanto pela PINI como pelo SINAPI, são número médios e que na prática os números da produtividade na realidade são bem menores. Esta é uma das principais razões do alto custo das obras publicas no Brasil, outro fator para o elevado Custo Brasil. Os estudantes das profissões relacionadas à construção aprendem a fazer o "orçamento" usando a tabela SINAPI, que como já disse, é apenas um levantamento feito por uma instituição financeira e não uma empresa da construção e, portanto, os dados apresentados na SINAPI não tem nenhum compromisso com a PRODUTIVIDADE das tarefas de um canteiro de obras. Eu chamo de "orçametno" por que não é verdadeiramente um Orçamento mas uma simples Estimativa de Custo.

O estudante que pretende trabalhar numa Construtora eficiente deve estudar por conta própria a questão da Produtividade na Construção. O mercado de trabalho é de alta concorrência e qualquer centavo economizado é fator decisivo no custo final da obra. Não é fácil encontrar tabelas de produtividade pois as construtoras guardam elas a sete chaves. Se possível, visite obras particulares, obras pequenas, destas feita por pequenos empreiteiros e converse com os encarregados sobre esta questão da Produtividade e, quando permitido, acompanhe a execução das tarefas. Cronometre, por exemplo, o assentamento de azulejo, a execução de uma pintura de parede, o tempo para instalação de um batente de porta e vá criando suas próprias tarefas. Eu fazia isso quando estava no terceiro e no quarto ano da Politécnica e foi assim que tive condições administrativas para, em 1975, montar minha própria construtora pois já tinha minhas próprias tabelas de produtividade e conseguia ganhar as concorrências e tinha lucro, não mexendo nos custos mas mexendo na produtividade.

Um outro fator que aumenta o custo das obras públicas é a Lei 8.666 que proíbe “meio que disfarçadamente” a participação de empresas eficientes e com domínio das técnicas construtivas ao direcionar a licitação para a pior empresa, isto é, a que apresentar o menor preço e todos sabem que o menor preço nunca é a de melhor qualidade, muito pelo contrário o menor preço geralmente é a de pior qualidade.

Talvez por isso, encontramos escolas e hospitais públicos sempre às voltas com telhados que vazam. O pior é quando o secretário de obras, que fez a contratação, vem a público e alega que “choveu mais que o esperado” como se estivesse querendo defender a incompetente “construtora“ que ele mesmo contratou.

Felizmente, a arcaica Lei 8.666 de 1993 foi aposentada, isto é, anulada e substituída por outra, mais moderna, a Lei 14.133 de 10 de abril de 2021 que, depois de 28 anos, incorpora os avanços tecnológicos que a engenharia brasileira conquistou na pesquisa de novos materiais, no desenvolvimento de novos métodos construtivos, no emprego intensivo de equipamentos modernos e na automação dos processos de fabricação, transporte, montagem, construção, operação e manutenção.

O interessante, na tabela SINAPI, é que as perdas (incorporadas e por resíduos) fazem parte do processo e não há como se falar em reduzir o desperdício. Daí não haver interesse, por parte das empresas que trabalham para o governo, em “perder tempo” com pesquisa de novos materiais ou com o aprimoramento das técnicas construtivas. Assumimos a postura medíocre de que o desperdício é parte indissociável de uma obra.

Nas redes sociais da área da construção como o Clube dos Engenheiros Civis eu gostaria de ver discussões sobre novos materiais e novos métodos construtivos enfocando a qualidade e a produtividade nas obras mas isso será muito difícil pois não faz parte do escopo das pessoas. As faculdades ditas de "arquitetura" ou de "engenharia" não possuem Laboratório de Construção. Os alunos não fazem ideia do que seria "produtividade" pois esse tema nunca é aboradado na maior parte das faculdades brasileiras. Nas minhas andanças pelo país é comum encontrar professor da disciplina Materiais de Construção que nunca construiu nada, nem mesmo um simples muro de alvenaria. A maior parte das cidades brasileiras não tem Laboratório de Ensaios de Materiais e chega a ser um absurdo alguém pensar em Medir a Resistência de um simples Bloco de Concreto fornecido por uma fábrica de blocos local pois precisaria enviar o lote de blocos para São Paulo, pagando um frete muitas vezes maior que o próprio preço do ensaio. É muito comum construtoras construindo prédios autoportantes empregando blocos comuns, não estruturais.

Para facilitar o acesso aos Cadernos Técnicos de Composições de Serviços editado pelo SINAPI ofereço para download o arquivo PDF que contém o link para os cadernos que são acessados ao vivo no site www.caixa.gov.br . Clique aqui para receber o PDF e guarde-o em local de fácil acesso no seu computador clique aqui.

www.ebanataw.com.br/SINAPI_SUMARIO_DE_PUBLICACOES_E_DOCUMENTACAO.pdf.

7- COMO MELHORAR A LEI 8.666:

Uma das alternativas para melhorar o desempenho da Lei 8.666 seria fazer uma alteração nela para pontuar não mais o preço final mas os quantitativos de materiais, de equipamentos e de mão de obra. A pergunta da licitação passaria a ser "quem consegue construir esta obra, mantendo a qualidade, com menos insumos?", entendendo como insumo os materiais, os equipamentos, a mão de obra e o tempo. O edital apresentaria os percentuais de cada componente para a média ponderada e privilegiaria a natureza da obra, explicando melhor, numa obra convencional como uma escola os percentuais dos insumos devem privilegiar o prazo da obra, já numa obra como um museu em que a concepção do partido arquitetônico é o ponto alto a lei deve privilegiar os materiais e o método construtivo, uma obra como uma barragem numa região pobre com muita mão de obra disponível deve privilegiar o emprego intenso de mão de obra em detrimento dos equipamentos automatizantes.

Deste modo, a lei 8.666 passaria a dar maior valor àqueles aspectos mais relevantes de uma obra fazendo com que as licitações públicas conduzam ao resultado: O MELHOR QUE PODEMOS FAZER COM O DINHEIRO PÚBLICO, isto é, o maior benefício com os menores insumos.

INFELIZMENTE, o Brasil caminha na contra-mão da evolução tecnológica da construção mundial. A nova lei, a que substitui a 8.666 (a partir de 10 de abril de 2021) ELIMINA POR COMPLETO a preocupação com a qualidade ou com a produtividade e proibe até que se faça exigência de experiência anterior, isto é, qualquer empresa pode construir tuneis, metrôs e outras obras de alta complexidade como hospitais sem nunca ter construído antes algo parecido, concentrando APENAS nos aspectos econômicos e financeiros de um empreendimento público. Quando uma obra pública não resiste a uma simples intempérie a construtora não pode ser responsabilidade pois ela "fez a obra seguindo todas as normas técnicas" e "choveu mais que o esperado" de modo que ela não tem nenhuma culpa e, então, a saída é fazer uma Nova Licitação e pagar para remover o que desabou e pagar, com dinheiro público, para fazer de novo, provavelmente de novo mal feito.

Tenho saudades da época antes de 21 de junho de 1993 quando as obras públicas eram contratadas em DUAS ETAPAS. A primeira em que não se falava em dinheiro, nem em custos nem em impostos e era pura Técnica e se procurava a qualificação técnica mínima, isto é, as Proponentes tinham que demonstrar e, conforme o caso, até provar que sabiam, tinham experiência e reuniam condições de tocar a obra do princípio até o fim. A Comissão que fazia o Análise da Competência Técnica e Operacional das Proponentes ficava presa, incomunicável nos 15 dias que antecediam a entrega das Propostas Técnicas, não participavam da cerimônia de Abertura dos Envelopes e as Propostas Técnicas, depois de serem rubricadas por todos os Proponentes eram levadas, com segurança feita por soldados do exército, até o recinto onde os membros da Comissão de Julgamento Técnico (todos profissioinais da engenharia experientes e com notória expecialização) analisavam, item a item, todas as questões técnicas do projeto proposto atribuindo um ponto em cada quesito. Hoje em dia, uma Proponente não pode apresentar algum material novo ou um método construtivo patenteado e que apresenta grande economia e outras vantagens pois este fato -tecnologia proprietária- significa tirar a igualdade de concorrência entre as proponentes. O resultado desta fase era uma lista de todos os Proponentes com os respectivos pontos e aquele Proponente que não atingisse um certo ponto mínimo era excluído do processo licitatório.

Uma curiosidade é que, como todos sabem, uma construtora pessoa jurídica não constroi pois são as pessoas físicas que pensam e fazem. Então, para a garantia de que as obras contratadas seriam tocadas por pessoas competentes, os engenheiros apresentados, na Proposta Técnica, como os profissionais que com suas expertises garantiriam a qualidade das obras (na Proposta Técnica era obrigado anexar o Currículo dos profissionais) a empresa contratada era obrigada a assinar um termo de compromisso segundo o qual aqueles engenheiros que têm a experiencia e sabem como fazer seriam mantidos no corpo funcional da empresa até o final das obras.

Na segunda etapa, aí sim em condições de igualdade Técnica e Operacional, as Proponentes eram convidadas a apresentar a Proposta Comercial contendo seus respecitovos preços.

   

8- PARA QUEM ESTÁ INICIANDO EM LICITAÇÕES PÚBLICAS:

O autor do site, o engenheiro civil Roberto Massaru Watanabe, participou de centenas de licitações públicas, tanto do lado do Proponente como do lado do Licitante, desde obras e serviços de pequeno porte como impermeabilização de caixas d'água enterradas, instalação de sistemas de ar-condicionado tipo SPLIT, instalação de gás natural em edifício habitado, adequação para a acessibilidade pela norma NBR-9050 (rampas, corrimões, rotas podotáteis), adequação de instalações de segurança (hidrantes, sprinklers, rotas de fuga, pontos de encontro) até obras de porte como rodovias e hidrelétricas realizando o preparo do edital (com todas as burocracias como preparo do Termo de Referência, o DOD - Documento de Oficialização da Demanda, pesquisa para a estimativa de custo, a contratação, a fiscalização e a liberação de medições e tem muita experiência que pode ser aproveitada nas suas empreitadas. Watanabe pode te ajudar na forma de curso completo de Como participar de uma Licitação Pública e também em orientações específicas sobre todo o processo licitatório até a entrega final das obras.

 

 

NOTA: Este site é mantido pela equipe do engenheiro Roberto Massaru Watanabe e se destina principalmente para estudantes. Pelo caráter pedagógico do site, seu conteúdo pode ser livremente copiado, impresso e distribuido. Só não pode piratear, isto é, copiar e depois divulgar como se fosse de sua autoria. Watanabe é engenheiro da "velha guarda" e participou das obras de porte da engenharia nacional como o Sistema Cantareira de Abastecimento de Água da Grande São Paulo nos idos de 1970 época da COMASP (antes da SABESP), da Rodovia dos Imigrantes (1972), Complexo de Urubupungá (Jupiá e Ilha Solteira), época da CELUSA (antes da CESP), Itaiu e Tuicuruí e mais recentemente, como consultor da SABESP e também como servidor público federal concursado em obras de edificações de porte pequeno e médio.


ET-10\RMW\orcamento.htm em 05/04/2019, atualizado em 24/05/2025 .


    RMW-5080-08/06/2026